Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento realizado em Brasília provocou forte repercussão entre representantes da Polícia Civil em diferentes estados do país. A fala ocorreu durante uma reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, conhecido como “Conselhão”, e motivou manifestações públicas de entidades ligadas à categoria, além de críticas de policiais e ex-integrantes das forças de segurança.
Durante o encontro, realizado em 10 de junho, Lula apresentava uma iniciativa do governo federal voltada à recuperação e devolução de celulares roubados ou furtados. O programa prevê o envio de notificações aos portadores de aparelhos com origem ilícita, orientando sobre a devolução dos equipamentos por meio das agências dos Correios.
Ao justificar a escolha dos Correios como um dos canais para recebimento dos aparelhos, o presidente afirmou que parte da população teria receio de procurar delegacias por não saber qual tipo de policial ou delegado encontraria no local. A declaração rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e entre entidades representativas da Polícia Civil.
Entidades classificam declaração como inadequada
A Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol) divulgou nota pública criticando a fala presidencial. A entidade avaliou que a declaração foi inadequada e afirmou que ela transmite uma imagem distorcida do trabalho desenvolvido pelas delegacias em todo o país.
Segundo a associação, procedimentos envolvendo apreensão, guarda e análise de aparelhos celulares seguem normas legais rigorosas, sob fiscalização de órgãos competentes, incluindo o Poder Judiciário e o Ministério Público.
Para a Adepol, generalizações sobre a atuação policial podem contribuir para o enfraquecimento da confiança da população nas instituições responsáveis pela investigação criminal.
Repercussão alcança outras entidades
A reação não ficou restrita à associação nacional dos delegados. A Frente Parlamentar da Segurança Pública também se manifestou sobre o episódio, classificando a declaração como injusta em relação aos profissionais que atuam na Polícia Civil.
Entidades representativas de delegados dos estados de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul igualmente divulgaram posicionamentos públicos. Em comum, os comunicados destacaram preocupação com o impacto da fala na imagem das delegacias e na credibilidade das instituições policiais.
Ex-delegado-geral de SC rebate presidente
Em Santa Catarina, uma das manifestações de maior repercussão partiu de Ulisses Gabriel, ex-delegado-geral da Polícia Civil catarinense. Atualmente pré-candidato a deputado estadual, ele utilizou as redes sociais para responder à declaração do presidente.
Ao comentar o assunto, Ulisses Gabriel questionou: “Que bandido que gosta de polícia?”.
Na mesma publicação, o ex-chefe da Polícia Civil afirmou que as forças de segurança desempenham papel fundamental na manutenção da ordem pública e classificou as polícias como uma das principais barreiras contra o avanço da criminalidade.
Ele também mencionou pesquisas recentes que apontariam elevados índices de confiança da população em relação às instituições policiais.
Governo mantém programa de devolução de celulares
Apesar das críticas e das manifestações de entidades representativas da categoria, o programa federal de recuperação e devolução de celulares roubados ou furtados segue mantido pelo governo.
Até a última atualização do caso, não havia indicação de mudança na proposta apresentada durante o encontro do Conselhão. Paralelamente, entidades ligadas à Polícia Civil continuavam cobrando um posicionamento público do presidente em relação às declarações que motivaram a controvérsia.
O episódio ampliou o debate sobre a relação entre a população e os órgãos de segurança pública, além de provocar reações de representantes policiais em diferentes regiões do país.

