Morre Lito Sousa, referência da aviação brasileira e criador do Aviões e Músicas

Cotidiano Destaque

Morreu nesta quinta-feira (1º), aos 59 anos, o especialista em aviação, piloto e criador de conteúdo Lito Sousa, conhecido nacionalmente pelo canal Aviões e Músicas. Ele estava em São Paulo, em casa e sob cuidados paliativos, após receber o diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade neurológica rara e de rápida progressão. A morte foi confirmada por uma publicação nas redes sociais.

A esposa de Lito, Mila Seidl, comunicou a despedida pelas redes sociais. Na publicação, escreveu uma mensagem de despedida ao marido e afirmou: “Um grande abraço e até o próximo voo. Foi uma honra ter viajado com você. Te amo. Sempre”.

Lito deixa Mila e o filho Malone, de sete anos.

Uma trajetória construída dentro da aviação

Joselito Geraldo de Sousa nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 25 de janeiro de 1967. Sua relação com a aviação começou ainda na adolescência, quando ingressou em um curso técnico ligado à Força Aérea Brasileira.

Ao longo de mais de três décadas, trabalhou na manutenção e na segurança operacional de aeronaves. Sua trajetória profissional passou por empresas como Varig, Transbrasil e United Airlines, onde chegou a atuar como chefe internacional de manutenção de aeronaves. Também se especializou em fatores humanos relacionados à segurança de voo.

Antes de se tornar conhecido por milhões de pessoas na internet, Lito já tinha uma longa experiência nos hangares e na área técnica da aviação.

Foi essa experiência que posteriormente serviu de base para uma segunda etapa de sua carreira.

Do blog ao canal que popularizou a aviação

O projeto Aviões e Músicas começou na internet antes de se transformar em um dos maiores canais brasileiros sobre aviação.

Lito passou a utilizar a experiência acumulada durante a carreira para explicar, em linguagem acessível, assuntos que normalmente ficavam restritos aos profissionais do setor. Turbulência, manutenção, funcionamento das aeronaves, acidentes aéreos, segurança operacional e fatores humanos passaram a fazer parte do conteúdo produzido por ele.

O canal cresceu ao longo dos anos e chegou a ultrapassar 3,7 milhões de inscritos no YouTube, segundo levantamentos publicados por veículos de imprensa.

Lito também passou a ser procurado por veículos de comunicação sempre que acidentes aéreos de grande repercussão aconteciam no Brasil. Entre os episódios comentados por ele estavam acidentes envolvendo os Mamonas Assassinas, a Chapecoense e a cantora Marília Mendonça.

Em 2021, depois de décadas trabalhando no setor, Lito também obteve sua habilitação como piloto privado.

A relação com o medo de voar

Uma das marcas do trabalho de Lito foi aproximar o público leigo do universo da aviação.

Além dos vídeos, ele criou projetos voltados a pessoas que tinham medo de voar. A proposta era utilizar conhecimento técnico para explicar o que acontece dentro de uma aeronave e por que determinados ruídos, movimentos e procedimentos fazem parte de uma operação normal.

Também lançou o livro “Onde Morrem os Aviões” e participou da criação da Lito Academy, voltada à formação e ao ensino na área da aviação.

A doença mudou a rotina em poucos meses

Os problemas de saúde de Lito vieram a público em julho de 2026, quando ele revelou ter recebido o diagnóstico de câncer de próstata após exames de rotina. Naquele momento, o tratamento do câncer ainda era uma das principais questões acompanhadas pela família.

Pouco depois, porém, surgiram sintomas neurológicos. Lito passou a apresentar dormência e dificuldades motoras, e o quadro evoluiu rapidamente.

Inicialmente, uma das hipóteses consideradas pelos médicos era de encefalite autoimune. Depois de semanas de investigação, a equipe do Hospital Israelita Albert Einstein chegou ao diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob. A confirmação foi divulgada por Mila em 21 de agosto.

A partir daí, a família iniciou uma mobilização para tentar encontrar alternativas de tratamento.

Família buscou tratamento experimental

A doença de Creutzfeldt-Jakob não possui, até o momento, tratamento aprovado capaz de interromper ou reverter sua evolução. A enfermidade é causada por alterações em proteínas chamadas príons e pode provocar deterioração neurológica acelerada.

Com o avanço do quadro, a família de Lito procurou centros de pesquisa e possibilidades de inclusão em estudos experimentais no exterior.

O caso ganhou repercussão nacional e chegou ao Ministério da Saúde, que informou ter buscado possibilidades de inclusão do influenciador em um estudo experimental nos Estados Unidos.

Em agosto, presidentes de Azul, Gol e Latam também participaram de uma manifestação pública de apoio a Lito, em uma ação divulgada pela Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear).

A mobilização ultrapassou o ambiente digital. Um piloto brasileiro chegou a escrever o nome “LITO” no céu do Texas durante um voo em homenagem ao especialista.

Medicamento experimental chegou ao Brasil

Em setembro, a família conseguiu acesso excepcional à substância experimental ALN-6457.

A autorização para importação foi concedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e Lito se tornou o primeiro ser humano a receber a substância, que ainda não tinha eficácia comprovada em estudos clínicos para a doença.

O medicamento chegou ao Brasil em setembro e foi administrado enquanto Lito estava internado no Hospital Israelita Albert Einstein. Segundo a esposa, inicialmente não houve intercorrências provocadas pela aplicação.

A família, entretanto, alertou que não seria possível avaliar imediatamente se o tratamento havia produzido algum efeito.

Dias depois, Mila precisou desmentir informações que circulavam nas redes sociais sobre uma suposta recuperação dos movimentos de uma das mãos de Lito. Segundo ela, não havia ocorrido melhora significativa.

A manifestação da família foi uma das últimas atualizações públicas sobre o estado de saúde de Lito antes da confirmação da morte.

Lito e a ligação com o Oeste de Santa Catarina

A morte também repercute no Oeste catarinense.

Lito estava confirmado como um dos palestrantes da edição de 10 anos do HJ Conference, realizada em Concórdia entre os dias 24 e 26 de setembro. Com a evolução do quadro de saúde, sua participação foi cancelada, mas a organização decidiu manter uma homenagem ao especialista durante o evento.

No último sábado (26), trechos de vídeos produzidos por Lito foram apresentados no palco do HJ Conference. O material resgatou conteúdos sobre aviação em Concórdia e na região e lembrou a contribuição dele para aproximar o conhecimento técnico do público.

A homenagem ganhou ainda mais significado poucos dias depois, com a confirmação da morte.

O próprio Jornal do Meio-Oeste havia acompanhado a homenagem realizada no encerramento do evento em Concórdia.

Uma carreira marcada pela tradução da aviação para o público

Lito Sousa construiu uma carreira em duas frentes que acabaram se encontrando: primeiro, como profissional da aviação; depois, como comunicador.

Durante décadas, trabalhou diretamente com aeronaves e segurança. Na internet, transformou esse conhecimento em conteúdo para milhões de pessoas.

O resultado foi uma trajetória que fez com que assuntos normalmente restritos a pilotos, mecânicos e especialistas passassem a ser discutidos também por passageiros e pelo público em geral.

Lito morreu aos 59 anos, deixando uma carreira de mais de três décadas na aviação e um dos maiores canais brasileiros dedicados ao tema.

A despedida encerra uma trajetória que começou nos hangares, passou pelas grandes companhias aéreas e chegou a milhões de pessoas por meio da internet.

No céu, sua frase mais conhecida falava sobre turbulência. Na vida profissional, Lito passou décadas tentando justamente explicar ao público o que existe por trás dela.

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