A codorna é um alimento bastante conhecido e consumido em diversas partes do mundo, mas uma de suas espécies pode representar risco à saúde em determinadas situações. Estudos científicos apontam que a codorna-comum (Coturnix coturnix), encontrada na Europa e na Ásia Ocidental, pode acumular substâncias tóxicas em seu organismo, tornando sua carne ocasionalmente venenosa.
O fenômeno, conhecido como coturnismo, ocorre quando a ave ingere plantas que contêm toxinas ainda não identificadas pelos pesquisadores. Nesses casos, o consumo da carne pode provocar sintomas como dores musculares, náuseas e vômitos. Os registros desse tipo de intoxicação são considerados raros e dependem diretamente da alimentação do animal.
É importante destacar que essa característica não está relacionada à codorna-japonesa (Coturnix japonica), espécie criada em granjas e amplamente utilizada na produção de ovos e carne no Brasil. Segundo os estudos, não há evidências de que essa variedade apresente o mesmo risco.
Embora o caso da codorna-comum chame a atenção, ela não é a única ave conhecida por armazenar toxinas. A ciência já identificou outras espécies capazes de acumular substâncias venenosas obtidas por meio da alimentação, principalmente a partir de insetos.
Entre elas está o Pitohui, ave nativa da Nova Guiné que foi a primeira espécie venenosa reconhecida cientificamente, em um estudo publicado pela revista Science em 1992. O pássaro acumula batracotoxina na pele, penas e tecidos, uma neurotoxina também encontrada em algumas espécies de rãs venenosas. O contato pode provocar irritação, ardência e dormência, enquanto a ingestão pode causar intoxicação.
Outra espécie é a Ifrita, também originária da Nova Guiné. Apesar de não possuir parentesco próximo com o Pitohui, ela desenvolveu características semelhantes e também armazena batracotoxina nas penas. Os pesquisadores atribuem esse fenômeno à chamada evolução convergente, quando espécies diferentes passam a apresentar adaptações semelhantes em resposta ao ambiente.
Já na África, o pato-ferrão (Plectropterus gambensis) pode acumular cantaridina ao consumir besouros da família Meloidae. Em algumas populações, essa toxina permanece nos tecidos da ave e pode representar risco caso a carne seja ingerida.
Os cientistas explicam que essas aves não produzem veneno naturalmente, como ocorre com cobras, escorpiões ou aranhas. Em vez disso, elas acumulam substâncias tóxicas presentes em sua alimentação, utilizando esse mecanismo principalmente como forma de defesa contra predadores e parasitas.
A existência dessas espécies também alimenta debates sobre antigas lendas, como a do Zhenniao, uma ave venenosa descrita na mitologia chinesa. Embora não existam evidências de que esse pássaro realmente tenha existido, a descoberta de aves capazes de armazenar toxinas demonstra que a ideia de um pássaro venenoso não pertence apenas ao campo da imaginação.

