Nova cobrança atinge cerca de 3 mil produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, enquanto mais de 2 mil itens permanecem fora da medida; governo brasileiro ainda avalia os próximos passos.
Tarifa adicional de 25% começa a ser cobrada nesta quarta-feira
A sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros exportados ao país começa a valer nesta quarta-feira (22). A medida, confirmada pelo governo de Donald Trump na última quarta-feira (15), atinge cerca de 3 mil itens e aumenta o custo para importadores americanos que adquirirem essas mercadorias.
A decisão foi tomada após uma investigação conduzida pelo Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O órgão norte-americano alegou que determinadas políticas brasileiras seriam prejudiciais ou restritivas ao comércio bilateral.
Entre os temas citados pelos Estados Unidos estão o sistema de pagamentos PIX, a regulação de plataformas digitais, acordos comerciais, fiscalização ambiental, o mercado de etanol, propriedade intelectual e medidas relacionadas ao combate à corrupção.
O governo brasileiro contesta as justificativas apresentadas e avalia que a decisão possui motivação política. Em Brasília, a interpretação é de que a medida envolve questões internas consideradas inegociáveis pelo Brasil.
Quais produtos brasileiros foram atingidos?
Apesar da amplitude da nova tarifa, uma extensa lista de mercadorias foi excluída da cobrança adicional. Entre os principais produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos em 2025 que ficaram fora da sobretaxa estão:
- petróleo bruto;
- café em grão;
- aeronaves;
- carne bovina;
- celulose;
- sucos de laranja;
- ferro-gusa;
- ferro-nióbio.
Por outro lado, setores como máquinas industriais, pneus, açúcar, etanol, tabaco, madeira, calçados e determinados produtos de alumínio passam a enfrentar a tarifa adicional de 25%.
A lista de exceções inclui produtos considerados estratégicos para a economia norte-americana, seja por sua importância para o abastecimento, seja porque os Estados Unidos não produzem volume suficiente de determinadas mercadorias.
Qual será o impacto do tarifaço para o Brasil?
De acordo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, a nova medida alcança 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, considerando como referência os números de 2024.
Esse percentual representa aproximadamente US$ 7,4 bilhões, o equivalente a R$ 37,6 bilhões.
Considerando os dados de 2025, a participação dos setores atingidos cai para 15%, ou cerca de US$ 5,8 bilhões, equivalentes a R$ 29,4 bilhões.
O ministro também afirmou que 57% dos produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos continuarão sem tarifa após a entrada em vigor da nova medida.
No agronegócio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) calcula que os setores afetados movimentam aproximadamente R$ 4,6 bilhões por ano em exportações para os Estados Unidos. O valor representa 36,5% das vendas do setor ao mercado norte-americano.
Apesar dos impactos concentrados em determinados segmentos, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a avaliação do governo é de que o tarifaço não deverá atingir a economia brasileira como um todo. Especialistas também consideram que a grande quantidade de produtos excluídos reduz o alcance geral da medida.
Como os Estados Unidos justificam a cobrança?
A investigação que antecedeu o tarifaço foi conduzida pelo USTR, órgão responsável por avaliar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos.
No relatório final, o governo norte-americano questionou diferentes políticas e práticas brasileiras.
Entre os pontos mencionados estão:
PIX e serviços de pagamento
O USTR afirmou que o sistema brasileiro poderia favorecer o PIX em relação a empresas norte-americanas que atuam no setor de pagamentos.
Regulação de plataformas digitais
O órgão também criticou decisões judiciais e medidas brasileiras relacionadas à atuação de redes sociais e empresas de tecnologia dos Estados Unidos.
Acordos comerciais
Outro questionamento envolve tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil a parceiros comerciais, entre eles México e Índia.
Fiscalização ambiental
O relatório apontou supostas falhas brasileiras no combate ao desmatamento ilegal.
Etanol
Os Estados Unidos alegaram que não existe reciprocidade suficiente no acesso ao mercado brasileiro de etanol.
Propriedade intelectual e corrupção
O documento também citou dificuldades no combate à pirataria, demora na análise de patentes e críticas a medidas relacionadas ao combate à corrupção e a decisões associadas à Operação Lava Jato.
O que diz o governo brasileiro?
O governo brasileiro classificou a decisão norte-americana como um “marco lastimável” na relação entre os dois países.
A avaliação oficial é de que parte das justificativas apresentadas pelos Estados Unidos interfere em assuntos internos do Brasil. O PIX, por exemplo, é tratado pelo governo brasileiro como um tema que não está aberto a negociações.
O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a medida como “injusta e descabida” e afirmou que o Brasil continua disposto a negociar.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, por sua vez, afirmou que ainda não seria o momento de falar em retaliação.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também orientou aliados a evitar uma reação considerada radical ao tarifaço, enquanto o governo busca avaliar os impactos econômicos e as alternativas de resposta.
Brasil pode aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica?
Após a confirmação da tarifa norte-americana, o Palácio do Planalto informou que iniciaria os procedimentos para avaliar o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica.
A legislação, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada por Lula em 2025, permite que o Brasil adote medidas de resposta contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais, legais ou políticas consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros.
Até o momento, porém, o governo ainda não anunciou uma retaliação concreta baseada na lei.
A tendência avaliada por especialistas é de que Brasília mantenha a possibilidade de usar a legislação como instrumento de pressão, mas priorize inicialmente as negociações diplomáticas e técnicas.
Uma eventual escalada poderia provocar novas medidas por parte do governo norte-americano. O histórico recente da disputa comercial entre Estados Unidos e China é citado como exemplo de como conflitos tarifários podem se intensificar rapidamente.
Quais caminhos o Brasil pode seguir?
Entre as possibilidades avaliadas estão a negociação direta, a utilização cautelosa da Lei da Reciprocidade Econômica e a busca por pressão política e empresarial dentro dos próprios Estados Unidos.
Uma das estratégias seria discutir os produtos individualmente, separando os temas considerados negociáveis daqueles que o governo brasileiro classifica como inegociáveis.
Outra alternativa seria manter a Lei da Reciprocidade como instrumento de pressão, sem necessariamente aplicá-la de imediato.
Também existe a possibilidade de ampliar a articulação com empresas norte-americanas, integrantes do Congresso dos Estados Unidos e governos locais que possam ser afetados pelos efeitos econômicos da tarifa.
Especialistas também defendem que o Brasil busque novos acordos comerciais e diversifique seus mercados de exportação, reduzindo a dependência de determinados destinos.
Governo prepara medidas para setores afetados
O governo federal também trabalha na elaboração de ações para reduzir os efeitos econômicos do tarifaço.
Uma das medidas em avaliação é a criação de uma linha de crédito para empresas misturadoras, responsáveis pela combinação de insumos utilizados na produção de fertilizantes.
Outra frente envolve novos investimentos complementares ao Plano Brasil Soberano, programa criado para apoiar empresas afetadas por crises externas.
Entre as possibilidades está a oferta de crédito a empresas prejudicadas pelas tarifas norte-americanas, com a exigência de manutenção dos postos de trabalho.
O programa possui três eixos principais: fortalecimento do setor produtivo, proteção aos trabalhadores e diplomacia comercial.
Paralelamente, a ApexBrasil prepara um programa para ajudar empresas a encontrar novos mercados consumidores. A iniciativa deverá ser lançada no início de agosto, com investimento previsto de R$ 130 milhões e participação do setor privado.
Como isso impacta a população?
A nova tarifa não atinge diretamente todos os produtos brasileiros nem significa, automaticamente, um aumento generalizado de preços no Brasil.
O impacto tende a se concentrar nos setores que dependem das exportações para os Estados Unidos e que poderão enfrentar maior dificuldade para manter a competitividade no mercado norte-americano.
Empresas afetadas podem precisar buscar novos compradores, renegociar preços ou redirecionar parte da produção para outros países. Dependendo do setor, isso pode influenciar decisões de investimento, produção e emprego.
Ao mesmo tempo, a exclusão de produtos como café, carne bovina, petróleo, aeronaves e celulose reduz o alcance da medida sobre importantes áreas da economia brasileira.
O efeito final dependerá também da duração da tarifa, da capacidade de negociação entre os governos e das eventuais respostas adotadas pelo Brasil.
Nova sobretaxa de 12,5% pode elevar ainda mais a cobrança
Além da tarifa de 25% que começa a valer nesta quarta-feira (22), existe a possibilidade de os Estados Unidos aplicarem uma nova sobretaxa de 12,5% relacionada a supostas falhas na fiscalização de produtos fabricados com trabalho forçado.
A principal dúvida é se essa cobrança será acumulada à tarifa já anunciada.
Caso isso aconteça, alguns produtos brasileiros poderiam enfrentar uma sobretaxa total de 37,5%.
A possibilidade também está relacionada a uma investigação do USTR, que concluiu que a União Europeia e outros 59 países, incluindo o Brasil, falharam na proibição e na fiscalização da entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
A confirmação da nova medida poderá ocorrer na sexta-feira (24). O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que o anúncio deve ser feito em breve.
O que acontece agora?
Com a entrada em vigor da tarifa adicional, o governo brasileiro terá de equilibrar a defesa dos interesses comerciais do país com a tentativa de evitar uma escalada nas tensões com Washington.
A negociação diplomática, a diversificação dos mercados de exportação e a eventual utilização da Lei da Reciprocidade Econômica estão entre os principais caminhos avaliados.
Enquanto isso, setores empresariais atingidos pressionam por soluções que priorizem o diálogo e evitem novas barreiras comerciais.
O impacto definitivo do tarifaço dependerá dos próximos movimentos dos dois governos, especialmente diante da possibilidade de novas cobranças e da capacidade do Brasil de preservar seus mercados de exportação.

