Áudios atribuídos a líder quilombola geram polêmica após críticas a catarinenses e ao governador de SC

Política Destaque Justiça

Áudios divulgados pelo ex-deputado estadual Bruno Souza reacenderam a discussão envolvendo a intervenção ambiental realizada no Parque Estadual do Rio Vermelho, em Florianópolis. Nas gravações, uma das lideranças do grupo responsável pela intervenção faz críticas a opositores do projeto, aos catarinenses e ao governador Jorginho Mello.

Em um dos trechos divulgados, a mulher afirma que Santa Catarina é um estado racista e menciona a existência de grupos nazistas. Em outra declaração, classifica o governador como “totalmente autoritário e nazista”. As afirmações foram apresentadas pelo ex-deputado como parte de gravações relacionadas à disputa envolvendo a área reconhecida como território quilombola.

O conteúdo veio a público após Bruno Souza divulgar um vídeo sobre a retirada de árvores exóticas no Parque Estadual do Rio Vermelho, localizado no norte da Ilha de Santa Catarina.

Áudios orientam grupo a evitar ataques nas redes sociais

Em uma das gravações, a liderança orienta integrantes do grupo a não atacarem o vereador Bericó (PL-SC) nas redes sociais. Segundo ela, pessoas ligadas ao grupo adversário poderiam rastrear perfis e localizar familiares dos envolvidos.

Durante a fala, os opositores são classificados como “um grupo de nazistas”. Na sequência, a mulher amplia a crítica para Santa Catarina e afirma que o estado seria racista e teria muitos nazistas.

Em outro trecho, ao mencionar o cenário político estadual, ela também faz a declaração sobre o governador Jorginho Mello.

Líder questiona origem e autenticidade das gravações

Procurada para comentar o conteúdo dos áudios, a líder questionou inicialmente a origem do material e quis saber quem havia fornecido as gravações à reportagem.

A resposta foi de que a imprensa possui o direito constitucional de preservar o sigilo da fonte. Depois disso, ela afirmou que poderia procurar a Polícia Federal para tentar identificar quem teria encaminhado os áudios e também mencionou a possibilidade de acionar a Defensoria Pública.

A líder também questionou a autenticidade das gravações e levantou a possibilidade de que o conteúdo tivesse sido produzido ou manipulado com o uso de inteligência artificial. Ela não apresentou, contudo, uma manifestação sobre o mérito das declarações atribuídas a ela.

Área reconhecida possui 961 hectares

O grupo envolvido na disputa é formado por cerca de 30 famílias que se identificam como quilombolas e descendentes de pessoas escravizadas libertas em Florianópolis no fim do século XIX.

A comunidade foi certificada pela Fundação Cultural Palmares e teve uma área reconhecida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 2022, após estudos históricos e antropológicos.

O território reconhecido possui 961,2893 hectares, o equivalente a aproximadamente 9,61 quilômetros quadrados. A área é coletiva e a titulação definitiva ainda é objeto de discussão judicial.

Em 2024, o grupo recebeu autorização de uso sustentável de 170,5 hectares pertencentes à União, destinados à moradia e a usos tradicionais. Em janeiro de 2026, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) suspendeu uma determinação que previa a conclusão da titulação total em 90 dias.

Disputa envolve retirada de pinus do parque

A retirada de árvores de pinus está no centro da controvérsia. A associação afirma que realiza um projeto de erradicação da espécie, considerada exótica invasora, com o objetivo de contribuir para a recuperação da Mata Atlântica.

Segundo a entidade, o projeto possui previsão de execução ao longo de cinco anos e segue normas ambientais estabelecidas por órgãos como o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), o Ibama e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).

Documentos relacionados ao caso indicam que o próprio IMA já previa a retirada de pinus e eucaliptos do parque. A área reconhecida como território quilombola ocupa aproximadamente 63% da unidade de conservação.

O Estado, por outro lado, questionou a execução dos trabalhos e alegou que a intervenção teria ultrapassado a remoção de espécies exóticas, atingindo vegetação nativa e envolvendo a abertura de vias. A associação nega as acusações e sustenta que as ações fazem parte de um processo de restauração ambiental.

Questões econômicas também aparecem nos áudios

Em outra gravação, a liderança afirma que o grupo enfrentaria uma “guerra muito difícil”, em referência aos conflitos políticos, judiciais e sociais relacionados ao reconhecimento territorial.

No mesmo contexto, ela critica o tesoureiro da associação por ter mostrado a outras pessoas um contrato do projeto e revelado informações sobre valores que seriam recebidos pelas famílias. A acusação apresentada no áudio é de exposição dessas informações, e não de desvio de recursos.

Também são mencionados temores relacionados à segurança dos moradores e de seus familiares diante da divulgação de valores. A liderança afirma que a exposição poderia torná-los alvos de crimes, mas não apresenta suspeitos, mensagens ou planos concretos relacionados a essas ameaças.

Em outro trecho, a retirada da madeira é associada à tensão com opositores do projeto. A liderança afirma que a revolta estaria relacionada à madeira e à destinação econômica do material retirado.

Informações sobre valores obtidos com a comercialização da madeira circulam nas redes sociais, mas não há divulgação pública, segundo o conteúdo apresentado, sobre os compradores ou os valores pagos. A autorização existente envolve a retirada de pinus, espécie considerada invasora, enquanto questionamentos sobre a destinação econômica do material continuam em discussão.

Decisões judiciais mantêm disputa em andamento

O reconhecimento territorial ocorre há anos e continua sendo discutido judicialmente. Em junho de 2026, o TRF4 manteve suspensos o embargo e a multa relacionados à intervenção, permitindo a continuidade apenas das ações de retirada de espécies invasoras e recuperação ambiental.

O mérito definitivo da disputa ainda não foi julgado.

A discussão reúne questões ambientais, territoriais, judiciais e políticas. Enquanto a associação defende que a retirada do pinus faz parte de um projeto de recuperação ambiental, o Estado questiona a extensão das intervenções realizadas na área.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *