Entre diálogos falhos
E duvidas inúteis
Indago uma única questão:
Por que sonho?
Por que vivo de poesia?
Sob o medo que no peito aperta
Faço da fé um trevo
Afinal, entre cartas de perseverança
E afirmações de uma vida liberta
Faço que eu mesmo seja preso
São como cordas de nó cego
As cargas em nossas costas
Envolvendo nossos pés,
Nos puxando para escotilhas.
E droga, escuro não é bom em respostas
Escondem sonhos abaixo de rodovias
Protegidos em roupas e cobertores
Classes opostas, arrancadas das mesmas tiras
Mas todas abaixo das mesmas mentiras
De que somos iguais
A aqueles que nos mataram um dia.
E na minha prisão
Minha indestrutível, intangível
Escotilha feita de porcelana
Com forros totalmente apodrecidos
Clamo por algum grau de iluminação,
– Deixe-me vislumbrar uma saída
Entre os pobres envelhecidos
Que já se doaram a ostentação.
Busco algum tipo de fé
Uma faca para cortar as cordas
Que agora sufocam meus pés
Meus pés inchados de unhas tortas
Que buscam beleza pelo que é.
Voo a um ano, um século, uma milha
Observando de um alto plano
A decadência de meus antigos planos
Sobre uma fuga da maldita escotilha
E que droga, o vento me leva para onde bem quer
Entre o céu, emaranhando palavras
Esperança, dor, empenho
Que em vez de criar entradas
Sangram como pestes e veneno
Por que leio?
Por que vivo de poesia?
Porque sem cordas
Correria em gramados largos
Nadaria acima de ondas
Provocaria de tentar o doce e o amargo
Voaria abaixo de correntezas
Faria os anjos de alegria fartos
Sonharia em caminhar
Enquanto na terra voaria
De cachoeiras iria pular
E em roxas pousaria
Faria arapucas de pensamentos
E só os pertinentes libertaria
Enfim viveria,
Como se pudesse viver
Da escotilha de porcelana
Sobraria apenas o que o tempo
Não quis moer
Dos tetos apodrecidos
Sobraria apenas poesias
Que me esqueci de ler
Por que escrevo?
Porque vivo de poesia.
Porque aqui pelo menos
Entre as grades de plástico revestido
Posso a fé em pequenos feixes de luz ver
Sabendo que mesmo já há tento perdido
Conseguirei sobre sonhos de liberdade, escrever
E após anos de esperança
Finalmente sentir estas cordas, de meus pés desaparecer.
Autoria de: Ricardo Farias

