No canto da boca
Saliva compõe a culpa
De uma voz rouca
Para desejar-lhe alma pouca
Pouco espírito
Derramando a escassez desesperada
No estômago que trancava um grito
Expressado em olhares murchos
Levemente aflitos
Sufocada então
A paciência olhava acima do atrito
Um monte onde brilhava a demonstração
A mesma se perguntava ao seu arauto
“Caminharia entre tantas estradas?”
E o medo afirmava
“Caminharia por este caminho
Até sabendo que tal foi seu pior castigo.”
A dor, de tão saciada, soluçava
Estava farta de tanto figo
Pois a árvore do fruto esbanjava.
Seu coração não parava
Vitalício, ele bocejava
E entre risonhos olhares
Do monte debochava
Seu João, do alto, inibido
Cada batimento o desmontava
Não enxergava sentido
Sua alma gritava
Ele iludia
Vivia como tão bem fingia
Nos passos curtos seguia
E a cinta o apertava
“Quem eras?” Seu João lhes perguntava.
A lógica dizia não saber
E a incerteza, corajosa afirmava
“Você somos nós.
Somos os horizontes que tu deixou de olhar”
Ele olhou.
Olhos passaram a lacrimejar
A calma, irritada, já não aguentava as enxugar
E a alegria, atordoada, não conseguia as segurar.
“Quem somos nós?”
Seu João indagou ao tremer
“Somos você.”
A dúvida afirmou.
“Somos a vida que nos deixaste viver”.
A lógica concordou, sem duvidar
E o amor, com ele nem parecia se importar
A carência, isolada, só olhava,
Pois eles passaram a lhe enjoar
Seu João, então, olhou para o ar
“Que vida vivemos?”
A nostalgia dizia não poder lembrar
A ignorância se indignava
Por ver que nem da própria vida ele soubera cuidar
Mas o trauma dizia que era melhor
Que em uma cova estar
Claro, só para lhe consolar.
A saudade dizia “eu só lembro de quando
Você gostava de pintar”.
Seu João, ofegante, a, enfim, o monte alto alcançar…
Viu que anoitecia
Já podia ver o luar
Ele chorou. Disse:
“Fiz tudo isso para, no fim, não chegar a nenhum lugar.”
A sensatez lhe retrucou
“Ninguém mandou tu querer voltar”
E nisso seu João, irritado, gritou:
“Por que és tão vulgar?
Por que nenhum de vocês são o que deveriam ser?”
A lua tímida olhou com pena
Disse, então:
“Oh seu João… É porque eles são iguais a você.”
Autoria de Ricardo Farias


Eu curto muito linhas e versos, traz um tempo de infância, quando o poesia fazia parte da vida comum.