A preparação militar dos Estados Unidos está avançando para uma área que até pouco tempo era tratada principalmente como território de exploração científica: o espaço entre a Terra e a Lua. Em declarações feitas nesta semana, o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas americanas, afirmou que as tropas precisam estar preparadas para atuar em um cenário que vai da superfície terrestre à região cislunar, que compreende o espaço entre a órbita da Terra e a Lua.
A declaração ocorre em meio a uma sequência de anúncios dos Estados Unidos sobre a ampliação de suas capacidades militares no espaço. Dias antes, o secretário da Força Aérea, Troy Meink, havia confirmado que os americanos já possuem sistemas de armas de controle espacial posicionados em órbita. O chefe da Força Espacial, Douglas Schiess, também afirmou que militares da corporação operam armas em órbita destinadas a proteger as forças americanas de possíveis ataques que utilizem o espaço.
Os Estados Unidos não detalharam publicamente quais são essas armas nem suas quantidades. As autoridades americanas descrevem os sistemas como instrumentos de defesa e dissuasão, mas a confirmação representa uma mudança importante na forma como Washington fala abertamente sobre suas capacidades militares no espaço.
Por que a Lua entrou no planejamento militar
A preocupação americana não está restrita à superfície lunar. O foco está principalmente na chamada região cislunar, uma área que se estende da órbita terrestre até a vizinhança da Lua.
O tenente-general Gregory Gagnon, comandante do Combat Forces Command da Força Espacial dos EUA, afirmou que a expansão das atividades humanas no espaço exige que o país esteja preparado para defender seus interesses também nessa região. Segundo ele, a inteligência americana indica que potenciais adversários estão buscando ampliar suas capacidades de atuação no espaço.
A própria Força Espacial vem planejando ampliar sua estrutura. Segundo Gagnon, a intenção é praticamente dobrar o efetivo da corporação nos próximos cinco anos, chegando a aproximadamente 25 mil militares. Cerca de dois terços desse crescimento seriam direcionados ao comando responsável pelas forças de combate.
Documentos oficiais da Força Espacial também mostram que Washington já trabalha com um conceito operacional que inclui o monitoramento de objetos desde a órbita baixa da Terra até o espaço cislunar. O documento de planejamento para 2040 menciona capacidades que vão de sistemas de vigilância e guerra eletrônica a mecanismos capazes de produzir efeitos reversíveis ou destrutivos contra sistemas espaciais.
Isso não significa que exista atualmente uma guerra na região da Lua. As declarações americanas tratam de preparação, planejamento e dissuasão diante de possíveis conflitos futuros.
China reage e fala em risco de militarização
A movimentação americana provocou reação de Pequim.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que o país defende o uso pacífico do espaço e se opõe a uma corrida armamentista ou a qualquer tentativa de transformar o espaço em uma zona de guerra. Pequim também pediu que os Estados Unidos interrompam a expansão de sua estrutura militar no espaço.
A China criou, em 2024, suas próprias forças militares voltadas ao espaço, dentro de uma reorganização das Forças Armadas do país. O movimento foi apresentado por Pequim como parte do esforço para ampliar sua capacidade de lidar com crises e operações no domínio espacial.
A disputa, portanto, não envolve apenas equipamentos. Estados Unidos e China vêm ampliando suas capacidades espaciais enquanto também avançam em projetos de exploração lunar e de utilização de sistemas espaciais para comunicação, navegação, inteligência e operações militares.
O que diz o tratado internacional
A possibilidade de operações militares próximas à Lua também levanta questões jurídicas.
O Tratado do Espaço Sideral, adotado em 1967 e assinado tanto pelos Estados Unidos quanto pela China, estabelece que a exploração e o uso do espaço devem ocorrer de acordo com o direito internacional.
O documento proíbe colocar armas nucleares ou outras armas de destruição em massa em órbita da Terra ou instalá-las em corpos celestes. No caso da Lua e de outros corpos celestes, o tratado determina que sejam utilizados exclusivamente para fins pacíficos e proíbe a instalação de bases militares, fortificações, testes de qualquer tipo de arma e manobras militares nesses locais.
Existe, porém, uma diferença importante entre o espaço ao redor da Lua e a própria superfície lunar. O tratado não estabelece uma proibição geral de toda e qualquer capacidade militar no espaço. A legislação internacional restringe determinadas armas e atividades, enquanto a interpretação sobre outras formas de sistemas militares e de defesa espacial continua sendo objeto de debate. A própria reportagem da Associated Press observou que não está definido publicamente se as atuais armas orbitais americanas ou eventuais operações na região cislunar violariam os compromissos internacionais.
Uma nova fronteira estratégica
A distância média entre a Terra e a Lua é de aproximadamente 384 mil quilômetros. A região que separa os dois corpos celestes começa a ganhar importância estratégica à medida que governos desenvolvem satélites, sistemas de comunicação, missões lunares e projetos de exploração de longo prazo.
Para os Estados Unidos, o objetivo declarado é garantir capacidade de defesa e dissuasão diante de possíveis ameaças. Para a China, a prioridade declarada é impedir que o espaço seja transformado em um novo campo de corrida armamentista.
O cenário, portanto, ainda está longe de representar uma guerra no espaço ou na Lua. O que existe neste momento é uma mudança na preparação militar das principais potências espaciais, com Washington assumindo publicamente que suas Forças Armadas precisam estar prontas para operar em uma área que vai muito além da órbita terrestre tradicional.
A disputa pelo espaço deixa, assim, de ser apenas uma questão de exploração científica e passa a envolver cada vez mais vigilância, defesa, tecnologia e estratégia militar.
